
Um dos fatos mais interessantes que eu aprendi no mundo das vias de sinalização bioquímicas (signaling pathways) são as mutações que são capazes de transformar uma célula em cancerosa, e as diversas formas que o organismo tem de executar tais células. E de como matar essas células é importante para o resto do organismo.
Células são sistemas bastante ativos, com a capacidade de se comunicar com o meio ambiente e com outras células, além de se auto-regular. Entre outras coisas incríveis que células são capazes de fazer, temos leucócitos que perseguem bactérias através do rastro que as bactérias deixam. Temos também células nas gônadas que, em resposta a estímulos externos, fabricam hormônios sexuais. Ou células epiteliais que se reproduzem ou não de acordo com ordens dos vizinhos. Um último exemplo, já de auto-regulação, é o fato de que células, quando detectam um defeito no próprio DNA, podem segurar a mitose/meiose até que o DNA seja concertado. Em alguns casos, uma alteração genética é capaz até de disparar um sistema de morte celular programada (apoptose).
Esse último caso é justamente o que mais me impressiona. O câncer, simplificando ao extremo, é um grupo de células que "se revolta" e começa a crescer de forma muito rápida e desproporcional. Isso drena os recursos do resto do corpo além de ocupar fisicamente espaços e invadir outros órgãos. Para que um grupo de células passe a agir dessa maneira, é preciso que a célula passe a querer se reproduzir a uma taxa mais alta do que o normal. É preciso, portanto, uma mutação que dispare o crescimento descontrolado, o que é esperado.
Mas uma outra coisa que é preciso acontecer é que as células também precisam ser capazes de ignorar o sistema que manda elas morrerem! Isso eu acho incrível. Mutações em uma proteína, a p53, que é uma das mais centrais nas vias de sinalização de apoptose, por exemplo, estão presentes em cerca de 50% dos casos de câncer, de acordo com uma estatística que uma professora daqui me mostrou. A proteína que funciona bem p53, ao perceber que algo não está certo com o DNA da célula, é capaz de segurara reprodução. Em alguns casos ela segura a reprodução pra sempre. E às vezes, ela até manda a célula se suicidar! Já o p53 mutante é incapaz de reagir a uma alteração do DNA e o câncer se forma.
É interessante como para que o organismo precise viver, é preciso que as células se comportem. Mas como, por entropia, é impossível para um sistema com tantas células manter uma disciplina, é necessário também um mecanismo repressor de rebeldes. A apoptose. Vale notar que esse mecanismo também é utilizado por governos totalitários com bastante freqüência!